30 de out. de 2012

Te amo!

Talvez daqui vinte anos eu ainda faça as mesmas coisas que sempre fiz.
E daqui vinte anos, talvez você ainda esteja do meu lado e ao meu lado.
Mesmo que tudo possa ser ou parecer temporário, a minha intenção é que o fluir de tudo isso seja eterno, dando a real sensação de que o tempo parou para nós na melhor fase de nossas vidas: juntos.
Daqui pra frente se eu me parecer muito com você, desculpe o plágio, mas foi proposital. Porque a melhor sensação do amor não é sentir o outro, mas sentir-se o outro. Porque a única verdade em tudo isso é que "os semelhantes se atraem".
E serei semelhante sem ser igual, serei verdadeiro sem ser piegas, serei forte sem ser rude, serei tudo sem ser demasiado, serei frágil sem me quebrar, e serei seu sem deixar de ser eu!
Te amo!!!

29 de out. de 2012

Pseudo-poema #07

O que eu poderia ser é o que sou
Mas sou também aquilo que desejo ser
O gosto que eu tenho
Talvez doce ou amargo
Talvez seco ou suave
É o gosto de tudo que gosto.
O que eu posso, cabe dentro do meu limite
O que eu quero vai além de mim
O que eu odeio e o que eu amo
É que define o meu estado.
E tudo que está fora de mim
Existe mesmo na minha ausência
E permanece além da minha existência.

25 de out. de 2012

O gato

Marina se deliciava com o gato de Alice. Era pura delicadeza, porque embora não gostasse de gatos, gostava de Alice. O gato, que sabia do não gostar de Marina, sob a condição de uma delicadeza falsa, se sentia molestado, e apressava-se em descer daquele colo mal emprestado.
Alice se deixava levar pelos gestos de Marina, e o fazia por pura delicadeza, porque embora não gostasse muito de Marina, amava seu gato. E o gato, que sabia do gostar de Alice, sob a condição de um amor incondicional, se matinha calado enquanto saltava para o chão.
E o gato vivia sua desventura diariamente, entre a farsa e o amor, entre o colo e o chão; no limite das coisas que um gato pode aturar.

DO OUTRO LADO

Entre a pupila ligeiramente dilatada e a noção que seu cérebro tinha de que havia luz do lado de fora da janela, existiam infinitas partículas suspensas no ar marcando o caminho para que seu olhar não se perdesse. Só isso, no entanto, não era suficiente para que ele prestasse atenção ao que se desenrolava do outro lado da vida. Com o olhar fixo na luz que incidia sobre seu rosto, uma sombra pouco definida do corpo de Marília se movia em direção contrária ao seu desejo.
Ele queria estar do outro lado. Do lado em que pudesse escolher. Onde Marília pudesse estar. Mas ele não sabia – ou não entendia – ou não podia perceber que não era ele quem criava as regras da sua existência. Era Marília!
Marília era ele do outro lado, e isso ele não podia ver através da pupila ligeiramente dilatada, nem pela noção que seu cérebro fazia de que havia uma outra vida dentro de si.
Seu olhar – não o seu cérebro, mas o seu olhar mesmo, fixava a sombra em sua retina e mesmo quando dormia podia ver Marília. Isso era tudo que ele podia ver, ou podia querer, ou podia ter! Mas ele tinha demais. Porque tinha Marília, porque tinha em sua vontade uma vontade que não era dele e nem era dela também. E o que ele não sabia era que a noção que seu cérebro fazia de uma outra vida não o tiraria dali – não o levaria até Marília.
Porque ele era Marília e ela era ele, ao mesmo tempo em que as partículas suspensas no ar eram o caminho até o outro lado da vida.
O que ele queria – se fosse de sua vontade – era estar lá,do outro lado.
A fina camada de desejos dispersos que compunham a sua vontade e a vontade de Marília não era suficiente para que a luz que havia no ambiente fizesse a ponte entre os dois lados. Ele era desejo. Ela era a vontade-inversa. Ele era o desespero. Ela era a falta-de-escolha. Ele era a luz. Ela era a sombra. Era a sombra em sua retina. Era a sombra do desejo. Ela era na verdade o outro lado. Mas ele também era. Não! ele era os dois lados, as duas vontades e a sombra.

24 de out. de 2012

BULA HERMÉTICA

Alguém disse certa vez que esquerdo é ímpar e direito é par, assim como pode perceber o ar que se curvava para não atingir a vela, evitando assim apagar a nítida impressão de que a chuva tinha lá suas razões para lavar a alma daqueles que perderam a secura da monotonia da fluência das coisas na filosofia de Heráclito.

Talvez porque seja verdade o que se diz de esquerdo e direito, par e ímpar, a falta de oxigênio sufoque a vela, desinformando a luz que explica para os olhos o que ele vê. Talvez seja verdade também que o filósofo seja um louco monótono tentando explicar a cor que os olhos do daltônico evita, que o latido do cão é o grito da mudez do paralelepípedo irregular, que aquilo que chamamos céu na verdade não tem nome para o deus que fugiu sem deixar vestígios.

Alguém disse certa vez que hermética é a bula que não explica o que sente, mas que sente o inexplicável poder do peso e da massa das coisas – a gravidade da órbita dos olhos alheios -, embora tudo seja ilusão e que o mundo não é uma esfera e sim uma folha habitada pelas traças humanas. Talvez as palavras não mostrem o que as letras querem nos dizer, e que ímpar é o que se pede para depois e par o que se deixou de ter por falta de motivo.

E assim, a única verdade é que você e eu não estamos em lugares diferentes, estamos aqui e agora dentro deste texto, no espírito que se entrega pacificamente ao seu destino de estar ao mesmo tempo dos dois lados da vida.