4 de out. de 2012

Atrás do vidro

Todas as noites seu corpo longilíneo contorce-se languidamente em movimentos sensuais e ritmados. Ela desce as mãos delicadamente até as coxas, aperta os seios, vira-se de um lado para o outro mostrando as costas nuas. Ela é o design perfeito de um corpo de mulher. Seus grandes olhos azuis hipnotizam a presa que, indefesa atrás do vidro, entrega-se aos seus encantos.

A cada noite vivida, em cada instante, em cada pensamento, em cada sorriso, em cada abrir e fechar das cortinas, ela vende muito mais que seu corpo escultural: vende sua alma, sua dignidade e sua fé. Uma diva, atriz, rainha, ninfa e escrava.

Todas as noites, seu corpo longilíneo contorce-se languidamente diante do vidro que lhe impede de ver aqueles que se saciam diante de sua performance. São predadores anônimos que pagam pelo desejo de ver a presa sem poder aprisioná-la. Todas as noites, ela pede que seja a última, ela implora através de gestos e gemidos, mas do outro lado, homens de mãos cheias e corações vazios contorcem-se pelo prazer imediato e fugaz. Ela continua seus movimentos sensuais e ritmados, desce as mãos até seu sexo, geme até que ela mesma não conte mais quantas vezes gemeu naquela noite.

Homens em fila indiana, a cada 5 minutos, vão trocando de lugar num ritmo que lembra um carrossel. Esse é o ritmo em que ela está acostumada a viver. Nesse encontro de duas realidades diferentes, nada mais faz sentido agora. Os dois lados são prisioneiros um do outro. Uma dependência psíquica, química - um coquetel de prazer fácil e barato. Um prazer falso, vítima de uma falsa entrega, de um adormecer incongruente. Atrás do vidro, a noite é seu cárcere. Cansada daquela maratona insana, ela adormece por um instante. Sonha com a liberdade, mas um cliente mais afoito esmurra o vidro para que ela acorde e lhe dê prazer:

- “E aí puta, eu tô pagando, levanta e geme gostoso.”

Nada mais faz sentido quando não damos sentido a nada. Cada momento guardado se torna uma grande pedra que incomoda e machuca. Nada mais fazia sentido para aqueles homens do que ver todas as noites aquele corpo perfeito serpenteando diante de seus olhos. Nada mais fazia sentido para ela quando o que ela mais queria era não ser ignorada nem desprezada. E nessas voltas que a vida dá, nada faz mais sentido do que se sentir vivo.

2 de out. de 2012

Caligrafia

...ontem a conheci, mas tinha uma letra estranha.
...como assim?
...uma letra estranha, não gostei!
...era bonita?
...não reparei, só na letra. Não gostei nenhum pouco.
...vai ver eram os dedos.
...dedos?
...dos pés, os dedos dos pés dizem muito sobre uma pessoa.
...inclusive que terá um dia uma letra horrível?
...talvez!
...pior que isso só o sotaque. Ah!, aquele sotaque me irritou, se bem que eu só percebi no banho.
...vocês tomaram banho juntos?
...tomei sozinho, mas fiquei com aquele sotaque na cabeça, e a letra é claro.
...mas se ela sabe se despedir é o que importa.
...sim!, mas foi por telefone.
...a cobrar?
...ainda bem que não foi por carta.
...não se faz mais isso hoje em dia.
...a despedida foi longa.
...como deveria?
...como poderia ser. Talvez nenhum dos dois tivesse outra alternativa.
...nem eu teria.
...o que importa mesmo é que não vou mais olhar para aquela letra horrível que ela tem.
...ela escreve?
...tem um computador e uma agenda eletrônica.
...isso conta?
...pra escrever?, espero que sim, seria a única maneira de avaliar sua escrita, ou seus pés, sei lá!
...vai criar coragem pra deixar o tempo rolar e...
...seus cabelos.
...o quê?
...seus cabelos eram de um estranho brilho.
...você...
...não, não teria coragem de tocar naqueles cabelos. Ela poderia achar que eu não entendi o que pretendia dizer com aquelas palavras mal escritas.
...também, com aquela letra?
...horrível.
...bom, uns vão outros passam e ninguém permanece.
...essa é a vida meu amigo!
...é!
...que vai fazer amanhã?
...pagar uma aula de caligrafia pra ela!!!

Sem tradução

De sorte que eu não havia pedido camarão. Lá da cozinha dava pra ouvir o Chef gritando, batendo com a cabeça nas panelas e arranhando algo entre francês e português ao mesmo tempo :

"La crevette estragô!!"

No que eu imediatamente retruquei em bom português:

"Eu não pedi escargot, caralho!!!

Ou talvez devesse ter pedido. Acabei saindo de lá sem jantar! 

Concerto n.º 5 - uma autobiografia NÃO autorizada

Eu me lembro bem daquele dia. Roberto Prado sentou-se em frente à máquina de escrever, e levantando as mãos como quem se prepara para tocar o "conserto para piano n.º 5", começou a datilografar sua própria biografia NÃO autorizada.
Digitava sem olhar para o teclado. Foi, durante muito tempo, funcionário público, antes de ser escritor famoso e cheio de manias. Uma delas, a de fumar um "Dona Flor double corona", enquanto escrevia suas histórias fantásticas. Digitava, fumava e falava comigo como se suas mãos fossem independentes de seu corpo - trabalhavam freneticamente na máquina, enquanto me contava algumas ideias que pretendia colocar no texto. Eu, a minha maneira, sempre achei que uma biografia NÃO autorizada venderia muito mais do que a oficial, autorizada pelo autor e escrita pelas mãos de um jornalista com boa fama e necessidade de dinheiro.
É claro que ele também sabia disso, e não deixaria essa oportunidade passar. Não que precisasse de fama ou de dinheiro, mas ele precisava escrever. E antes do "Dona Flor" queimar completamente, já havia terminado o capítulo inicial do livro. Perguntei como ele terminaria sua autobiografia NÃO autorizada; no que ele me respondeu, segurando o charuto numa das mãos e arrancando a folha da máquina de escrever com a outra:
- Deixarei inacabada. Nada melhor para os negócios. Deixa um grande suspense no ar, a conta no banco mais gorda, e os fãs mais ansiosos pela continuação. A expectativa é o tempero que adoça a boca e os olhos dos leitores. J. K. Rowling sabia disso, e usou muito bem essa arma. Não é nova, mas sempre funciona.
Colocou as folhas dentro de um envelope e me entregou dizendo:
- Esse não é o caítulo um. Guarde, este é o fim de tudo, e você vai publicá-lo depois de minha morte.
Voltou-se para a máquina, e quando ergueu as mãos, e eu tive certeza de que ele não datilografava, mas tocava o melhor concerto para literatura naquelas teclas.

Tudo normal

As ardósias florecem ao amanhecer, araucárias levantam vôo em direção ao por da lua, a manhã escurece ao brilho das sombras do meio dia. Tudo parece normal, diferente mesmo só a falta que você me faz!