11 de jan. de 2013

Sala de espera

Na sala de espera do ginecologista, duas estranhas trocam palavras enquanto esperam sua vez. Vou chamá-las de Silene e Elisa para proteger suas identidades.


Silene - Estou esperando um filho! (sorriso estampado na cara)
Elisa - Parabéns. Pra quando é? (sorriso estampado na cara)
Silene - Ah! Não sei ainda, talvez pra daqui dois ou três anos. (fazendo cara de quem sabe o que está dizendo)

Elisa - ...! (cara de 'não entendi porra nenhuma e quero sair do perto dessa mulher')
Silene -Quanto antes planejar, melhor (cara de quem é phd no assunto)
Elisa - A tá! (ainda com cara de medo, tentando esboçar uma reação que não mostre isso)
...e continua. - Nunca pensei dessa maneira
Silene - Primeiro uma consulta ao médico, depois arranjar um namorado, torcer pra ele querer casar, e depois disso, fazer um bebê fica super fácil. (mantendo a mesma cara de antes)
Elisa - Hummm! (com cara de 'essa mulher não sabe que não precisa casar pra ter filhos?')
Silene - Falta muito pra minha vez? (pergunta pra recepcionista)
Recepcionista - O Dr. já vai atendê-la, senhora. (mas só ela sabe que ainda faltam mais treze pacientes para serem atendidos. Afinal, se ela não tem pressa pra ter filhos, porque teria pra ser atendida?)

10 de jan. de 2013

Missa das sete

A missa das sete estava cheia apesar da chuva. Ele olhou para todos do alto de seus um metro e noventa e nove de altura, tirou os óculos, apertou os olhos a fim de enxergar melhor – talvez - e suspirou profundamente colocando os óculos de volta no nariz adunco e severo. Parecia agora pronto para falar. Os sons abafados da audiência o deixava apreensivo e ansioso. Talvez devesse se retirar e não enfrentá-los ainda. Pensou que outras oportunidades não faltariam para que dissesse a todos o que todos estavam ali para ouvir. Sentiu-se ridículo naquelas roupas, mas eram roupas comuns de sua profissão – não entendia por que elas lhe pareciam tão inapropriadas naquele momento.

A umidade da manhã de domingo entrava dissonante através dos vitrais e enchia o ambiente com uma incerteza concreta. Essa incerteza também tomava conta dele que tentava esconder seu medo esfregando as mãos úmidas num pequeno lenço que tirou do punho direito da batina. Olhou fixamente para todos mais uma vez, tirou os óculos e os limpou, colocou-os novamente e apertou os olhos a fim de entender melhor – talvez – o que todos ali já sabiam: sua incapacidade de iniciar o sermão. Não só o medo, mas o ceticismo tardio que o dominava eram uma barreira quase intransponível. De certo mesmo nele apenas o desejo de não estar ali. Pensou que talvez fosse um aviso divino – ou a falta dele – que sua fé fosse colocada à prova exatamente naquele instante.

Se Deus quisesse usá-lo como seu instrumento de marketing não seria ele quem lutaria contra, mas se essa estratégia o confundia, ele mesmo se encarregaria de resolver o problema da maneira mais fácil: desistindo! Mas ele pensou que desistir de tudo não era a mesma coisa que desistir de um fim de semana no lago. Seus pensamentos quase audíveis para a assistência o interromperam como um trovão, trazendo-o de volta ao seu lugar comum. Mais uma vez olhou todos ao redor, suspirou alto, tirou e colocou novamente os óculos num gesto nervoso, pegou mais uma vez o lenço na batina, enxugou a testa, esboçou uma palavra que chamou a atenção dos fiéis. E todos esperaram alguns segundos para ouvir a palavra salvadora, ou o que fosse, mas do alto de seus quase dois metros de altura ele só pensava em como não dizê-la. Ele não se sentia digno de proferi-la.

Os sons foram aumentando à medida que o tempo passava.
Os murmúrios transformaram-se em frases quase completas, o choro da criança entediada invadiu o nave, todos se perguntaram sobre a demora. No vitral, a figura do anjo Aniel se movia tomando agora a direção do altar, e outros anjos e santos se moveram a fim de tomarem seus lugares junto aos fiéis para ouvi-lo. O coroinha entrou balançando o incenso e defumando a todos.
Tomado agora por uma vontade que não era dele, levantou os braços em direção aos ouvintes, começou a mover os lábios, pensava haver dito alguma coisa, percebeu os fonemas, pensou ouvir sua própria voz. Ele não entendia se vinha dele ou de alguma força estranha seus movimentos involuntários, mas sabia por algum motivo desconhecido que não era ele quem falava. Outros que passavam do lado de fora da igreja entraram para ouvir o sermão. Os infiéis e os céticos que riam-se de tudo na praça se sentiram tentados a entrar, e entraram também, e o ateu que dormia nos degraus acordou assustado com a possibilidade de acreditar no que ouvia. Os bancos se encheram da gente que entrava sem parar, no corredor todos se acotovelavam para ouvir uma voz que se dilatava além daquele homem incerto e descrente. Ele sabia que sem a palavra não haveria o verbo. Pensava em si e em sua missão, dominado pelo desespero mudo. O silêncio da audiência espalhava-se pelo mundo. Sem a palavra o mundo tornar-se-ia um lugar silencioso. Essa responsabilidade aumentava exponencialmente sua impotência. E na tempestade da incerteza que invadia o homem e o sacerdote, a palavra se calou.

Do alto de seus um metro e noventa e nove de altura, ele olhou para a multidão, abaixou os braços, retirou o lenço da batina e enxugou a testa pela última vez, tirou os óculos e apertou os olhos a fim de ver que o tempo havia se esgotado. O silêncio explodiu na voz dos fiéis, os anjos se foram sem olhar para trás. Ele tirou as vestes sacerdotais e seguiu pelo corredor estreito entre os bancos e a multidão. Vestia uma calça jeans e uma camisa fina de malha. Não disse uma palavra a mais, porque não se achava digno de dizer nada. Pegou a direção da estrada velha e fez caminho onde só havia dúvida. Agora sentia-se livre, revigorado, autêntico.

Na nave, o coroinha defumava as peças de prata e bebia o vinho enquanto os fiéis esperavam em vão pelo sacramento.

por: ALEXANDRE COSTA

8 de jan. de 2013

Prostitutas de BH têm aulas grátis de inglês para se preparar para a Copa

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1211528-prostitutas-de-bh-tem-aulas-gratis-de-ingles-para-se-preparar-para-a-copa.shtml

Só tenho uma coisa pra dizer: finalmente esse país tá levando alguma coisa a sério!

Texticida em 500ml - O poeta e o astronauta

"Atrás de mim, num movimento infinito, a galáxia se move tão sorrateiramente que não noto a sua aproximação. Colisão de estrelas em minha cabeça, fogos noturnos em artifícios que me dominam e dão sentido a tudo. Abro os olhos e vejo enfim, que minha loucura não era sonho: a galáxia é ela; a colisão, seu corpo pensando sobre o meu; os artifícios, o gozo abrupto e avassalador."

Se alguém vier falar de amor, nem tente. Se vier falar de sofrer, experimente a dor primeiro, e me diga depois se nela também não há uma pitada de amor. Preste atenção no poeta e no astronauta, ambos vivem no mesmo lugar. Há sempre um conto em alguma parte, que fala de tudo quanto é possível falar, matando tudo que se pode matar.
No romance que li ontem - ela foi em minha direção, e o que eu vi não foi real - ela deslocando o ar ao seu redor, seu corpo perfeito me pedindo e eu fui, e foi como se ela estivesse nua me pedindo pra seguí-la. Mas era só um romance, simples folhas de papel e tinta...e veio a dor. E não havia mais nada em que acreditar!

2013: mais do mesmo

Aqui, dentro desta alma, foi-se o tempo em que se podia acreditar em mudanças e novos tempos! Nada nos modifica, nem nos torna mais fraternos, ou dispostos, ou eufóricos, cínicos, pessimistas, portadores de uma nova fé inabalda, "ou seja lá o que for" apenas por conta de uma volta completa em torno do sol.
O "Ano Novo(?)" começa como terminou o anterior, mas na verdade nada terminou, nem nada começou.
Não espero nada para estes próximos 365 dias que não seja o de sempre: calor infernal nessas terras outrora portuguesas; todo tipo de notícia ruim protagonizada por esta espécime violenta e egoísta que habita este lado da galáxia; trabalho, porque preciso pagar o aluguel e comer; etc!
Poetas e romancistas podem falar de mil maneiras diferentes, podem tentar convencer você de que há um "algo mais" em tudo isso: não há!. Os meios de comunicação em massa (do qual você faz parte e colabora), e o comércio insano de bugigangas de natal podem tentar fazer você acreditar que tudo vai mudar para melhor, mas tudo isso é falácia. A única verdade é que tudo flui, segue adiante, continua, monotamente como sempre foi e será.
Pra ser exato: mais do mesmo!

Ps: OK!, você vai explodir e gritar: o blog mudou de novo?!?!?!
Sim, mudou. Porque não paro, não sossego, não imito, não desisto...e sempre procuro (embora, nem sempre ache)! Mas, continuo, pois esse é o ciclo das coisas.

21 de dez. de 2012

CAPÍTULO I

"É Natal"

Nasci no natal, precisamente no dia vinte e quatro de dezembro de mil novecentos e setenta e quatro. E não estou dizendo aqui que foi minha mãe quem disse. Me lembro desse dia porque a enfermeira que me levou para fora da sala de cirurgia, vestia um gorro vermelho de papai noel. Lembro também de sentir suas mãos frias me tirando do colo de minha mãe, e depois, mais duas portas se abriram e fecharam antes que eu chegasse ao berçário.
Não é estranho para mim, lembrar de todos os fatos e momentos de minha existência, mas isto assombra muitas pessoas com quem falo. Particularmente, nascer no natal é um saco, ninguém lembra do seu aniversário. Contudo, isso já é passado para mim, hoje até agradeço esquecerem.
Tudo que pude ver quando saí da sala de cirurgia, foi um corredor branco, com paredes igualmente brancas. Senti um arrepio estranho nessa hora, e percebi o quanto era diferente o lado de fora da barriga de minha mãe. Era frio, e a sensação não era só essa, sentia também um tipo de dor que não era dor, mas que doía. E nas horas seguintes fui submetido a vários procedimentos que prefiro não falar. No fim, enrolado em cobertores macios, senti novamente o antigo calor maternal que me abrigava antes do nascimento. Ouvi choros e percebi que não estava sozinho. E devo registrar aqui que, do momento em que saí de dentro de minha mãe, até a saída do hospital, não chorei nenhuma vez!

20 de dez. de 2012

PRÓLOGO

"Os tomates na horta, o vôo das auraucárias e o jardim de ardósias"


Não fosse aquela, uma manhã de sábado, e os tomates na horta não estivessem brilhando feito um prisma ao sol, não acreditaria no que meus olhos viam. Ardósias, lindas ardósias florescendo no quintal do vizinho. Esperei o ano inteiro para ver isso. Ardósias são as minhas favoritas. De todas as cores, enchiam o jardim. As araucárias sobrevoavam a rua e vinham pousar nelas.
Essa visão da minha infância nunca me saiu da cabeça, e hoje, aqui no meu leito de morte, me lembro como se fosse hoje. Aliás, lembro-me de cada minuto e cada fato de minha existência desde meu nascimento até hoje. E tudo começou exatamente assim...

13 de dez. de 2012

Texto adaptado #5

É difícil acreditar, embora seja mais prudente aceitar, do que, simplesmente, tentar destituir de veracidade o fato de que nem tudo que parece na verdade é. Ou seja, ver não é enxergar, ouvir não é escutar, ter não é possuir... e assim por diante numa cadeia incansável de acontecimentos distintos, porém muito próximos daquilo que se assemelha, sem nunca se igualar.
Dito isto, o fato é que a imagem abaixo fala por si só, e derruba toda a introdução metafísica preambúlica!

5 de dez. de 2012

De volta...

Vou resumir em poucas palavras: muita preguiça e vagabundagem!

1 de nov. de 2012

30 de out. de 2012

Te amo!

Talvez daqui vinte anos eu ainda faça as mesmas coisas que sempre fiz.
E daqui vinte anos, talvez você ainda esteja do meu lado e ao meu lado.
Mesmo que tudo possa ser ou parecer temporário, a minha intenção é que o fluir de tudo isso seja eterno, dando a real sensação de que o tempo parou para nós na melhor fase de nossas vidas: juntos.
Daqui pra frente se eu me parecer muito com você, desculpe o plágio, mas foi proposital. Porque a melhor sensação do amor não é sentir o outro, mas sentir-se o outro. Porque a única verdade em tudo isso é que "os semelhantes se atraem".
E serei semelhante sem ser igual, serei verdadeiro sem ser piegas, serei forte sem ser rude, serei tudo sem ser demasiado, serei frágil sem me quebrar, e serei seu sem deixar de ser eu!
Te amo!!!

29 de out. de 2012

Pseudo-poema #07

O que eu poderia ser é o que sou
Mas sou também aquilo que desejo ser
O gosto que eu tenho
Talvez doce ou amargo
Talvez seco ou suave
É o gosto de tudo que gosto.
O que eu posso, cabe dentro do meu limite
O que eu quero vai além de mim
O que eu odeio e o que eu amo
É que define o meu estado.
E tudo que está fora de mim
Existe mesmo na minha ausência
E permanece além da minha existência.

25 de out. de 2012

O gato

Marina se deliciava com o gato de Alice. Era pura delicadeza, porque embora não gostasse de gatos, gostava de Alice. O gato, que sabia do não gostar de Marina, sob a condição de uma delicadeza falsa, se sentia molestado, e apressava-se em descer daquele colo mal emprestado.
Alice se deixava levar pelos gestos de Marina, e o fazia por pura delicadeza, porque embora não gostasse muito de Marina, amava seu gato. E o gato, que sabia do gostar de Alice, sob a condição de um amor incondicional, se matinha calado enquanto saltava para o chão.
E o gato vivia sua desventura diariamente, entre a farsa e o amor, entre o colo e o chão; no limite das coisas que um gato pode aturar.

DO OUTRO LADO

Entre a pupila ligeiramente dilatada e a noção que seu cérebro tinha de que havia luz do lado de fora da janela, existiam infinitas partículas suspensas no ar marcando o caminho para que seu olhar não se perdesse. Só isso, no entanto, não era suficiente para que ele prestasse atenção ao que se desenrolava do outro lado da vida. Com o olhar fixo na luz que incidia sobre seu rosto, uma sombra pouco definida do corpo de Marília se movia em direção contrária ao seu desejo.
Ele queria estar do outro lado. Do lado em que pudesse escolher. Onde Marília pudesse estar. Mas ele não sabia – ou não entendia – ou não podia perceber que não era ele quem criava as regras da sua existência. Era Marília!
Marília era ele do outro lado, e isso ele não podia ver através da pupila ligeiramente dilatada, nem pela noção que seu cérebro fazia de que havia uma outra vida dentro de si.
Seu olhar – não o seu cérebro, mas o seu olhar mesmo, fixava a sombra em sua retina e mesmo quando dormia podia ver Marília. Isso era tudo que ele podia ver, ou podia querer, ou podia ter! Mas ele tinha demais. Porque tinha Marília, porque tinha em sua vontade uma vontade que não era dele e nem era dela também. E o que ele não sabia era que a noção que seu cérebro fazia de uma outra vida não o tiraria dali – não o levaria até Marília.
Porque ele era Marília e ela era ele, ao mesmo tempo em que as partículas suspensas no ar eram o caminho até o outro lado da vida.
O que ele queria – se fosse de sua vontade – era estar lá,do outro lado.
A fina camada de desejos dispersos que compunham a sua vontade e a vontade de Marília não era suficiente para que a luz que havia no ambiente fizesse a ponte entre os dois lados. Ele era desejo. Ela era a vontade-inversa. Ele era o desespero. Ela era a falta-de-escolha. Ele era a luz. Ela era a sombra. Era a sombra em sua retina. Era a sombra do desejo. Ela era na verdade o outro lado. Mas ele também era. Não! ele era os dois lados, as duas vontades e a sombra.

24 de out. de 2012

BULA HERMÉTICA

Alguém disse certa vez que esquerdo é ímpar e direito é par, assim como pode perceber o ar que se curvava para não atingir a vela, evitando assim apagar a nítida impressão de que a chuva tinha lá suas razões para lavar a alma daqueles que perderam a secura da monotonia da fluência das coisas na filosofia de Heráclito.

Talvez porque seja verdade o que se diz de esquerdo e direito, par e ímpar, a falta de oxigênio sufoque a vela, desinformando a luz que explica para os olhos o que ele vê. Talvez seja verdade também que o filósofo seja um louco monótono tentando explicar a cor que os olhos do daltônico evita, que o latido do cão é o grito da mudez do paralelepípedo irregular, que aquilo que chamamos céu na verdade não tem nome para o deus que fugiu sem deixar vestígios.

Alguém disse certa vez que hermética é a bula que não explica o que sente, mas que sente o inexplicável poder do peso e da massa das coisas – a gravidade da órbita dos olhos alheios -, embora tudo seja ilusão e que o mundo não é uma esfera e sim uma folha habitada pelas traças humanas. Talvez as palavras não mostrem o que as letras querem nos dizer, e que ímpar é o que se pede para depois e par o que se deixou de ter por falta de motivo.

E assim, a única verdade é que você e eu não estamos em lugares diferentes, estamos aqui e agora dentro deste texto, no espírito que se entrega pacificamente ao seu destino de estar ao mesmo tempo dos dois lados da vida.

PARALELEPÍPEDOS

Thalitas são uvas e vestem roxo, Cristinas são mangas e vestem abóbora. Thalitas são cheias e esperam um amor impossível, Cristinas são rasas e divergem das opiniões alheias. Mas ambas são aurélios ambulantes, em casa, no restaurante. Seus amigos são brigadeiros, alguns de chocolate, outros de leite, não se vestem como as duas, nem são aurélios, mas procuram em suas vidas algo que os una em um ponto não raro, porque todos estão no mesmo barco em direção a algo que diverge e separa formando uma união estável entre todos.
Cristinas são mães, Thalitas são órfãs, se olham e se esperam, e se unem como mãe e filha, e não são mais Thalitas e Cristinas, são Lauras.
Lauras são morangos e são completas, tem amigos e se vestem de azul. O céu as espera um dia, porque todas são filhas de Maria.
Amigos são cajus e se comportam como tal. Aceitam seu destino e só mudam de posição se o sol estiver em suas janelas.
Todos somos laranjas, e esperamos que no varal exista uma roupa que nos sirva, porque o que nos serve nos completa. Andamos a noite sem medo de que o escuro nos mostre o que só existe sem a luz. Laranjas tem sua raridade e se vestem de nuvem, laranjas que caem também alimentam. Laranjas não existem na chuva.
Todos unidos pelo mesmo barro somos marrons e úmidos, brancos e secos, somos vasos e copos, somos pratos e ossos. Somos desentendimento, e sabemos separar aquilo que nos desagrada.
Somos letras e olhos, livros e críticos, somos cestas de frutas maduras que se separam pela cor e pelo gosto, pela casca e pelo sumo. Somos todas as respostas às mesmas perguntas.
Thalitas e Cristinas são diferentes e são iguais quando nossos olhos as encontram, mas hoje não há previsão porque estamos todos juntos à espera do relógio que marcará doze e vinte e nos separará definitivamente. Somos a vagem, somos as mãos que as separam, e de hoje em adiante viveremos por nós mesmos. Não haverá mais guia, apenas a garantia de que não há partida, apenas um adeus tímido e sem segurança.
Thalitas são mudas, Cristinas são falantes, se vestem de despedida quando a hora finda.
Somos paralelepípedos irregulares, o pulso da mão que varre, a onda que bate, somos a erosão que carrega consigo um pouco da terra que acabara de abraçar.
Thalitas e Cristinas, que são Lauras na verdade, é o canto das bocas sem fala, do grito do gesto que anuncia a igualdade da diferença.
Onde estivermos, se estivermos, e estamos, sem nexo e modo, parados diante de nosso espanto, diante do nosso quarto crescente. Somos a infância dos velhos menos sábios que grisalhos.
E temos nuvens que correm nas veias e mancham de azul o céu da boca. E assim esperamos com desespero, compreender o que não compreendemos, o que não tem começo, e o que não tem fim.
Thalitas são casas, Cristinas são ruas que vão se cruzar em praças de Lauras e dar sentido à palavra que espera pela definição de si própria: adeus.
E todos os nomes e todos os sentidos escapam por entre a surdez da mente ordinária: comum.
Os Aurélios voltam na primavera para assistir o começo de tudo, e Cristinas e Thalitas se despedem dos paralelepípedos dissonantes que compõem a nossa estrutura real: a mente.

23 de out. de 2012

Manual avançado para a fabricação de nuvens


Arthur C. Stendell em seu manual[1] sobre a fabricação de nuvens, especifica algumas medidas importantes a serem tomadas quando alguém estiver disposto à produção, tanto em massa, quanto em pequena escala – talvez visando apenas um comércio local – de tipos de nuvens para comércio. Entre elas podemos citar primeiramente a importância da observação meticulosa e paciente das condições atmosféricas do local onde se pretende abrir o negócio. Sim, porque a fabricação de nuvens é regida por um órgão que não admite a troca de local do estabelecimento – querendo com isso evitar o monopólio de um único fabricante, ou pior, a guerra entre eles. É o local que determina a quantidade, forma e estrutura da nuvem a ser fabricada.
         Ainda em seu manual, na página sessenta e quatro ele explica:

  “Para que haja a formação de nuvens é necessário que parte do vapor d’água contido na atmosfera se condense, formando pequenas gotículas de água, ou solidifique, formando minúsculos cristais de gelo. A esta formação, ou aglomerado de cristais de gelo e gotículas damos o nome de nebulosidade.”[2]

         Sabe-se ainda que, neste mesmo livro[3] ele expõe os pormenores de toda a parte burocrática com relação às especificações de “nuvens para chuva” e “nuvens para simples decoração do espaço aéreo”, incluindo as coordenadas estabelecidas de sua área de abrangência e a altura, esta determinada exclusivamente para cada tipo de nuvem.
         Saber exatamente onde e como fabricar sua própria nuvem é essencial para o bom andamento do negócio. As especificações técnicas que abrangem entre outras áreas a segurança, também podem ser encontradas no livro “Normas Técnicas para a Condensação da Água para a Fabricação de Cristais de Gelo.”
         Mas não vou falar aqui da parte burocrática nem técnica, que certamente não é a que mais interessa o leitor neste momento, falarei do processo de fabricação e dos modos – particulares – do exercício da preparação.
         Se o leitor quiser se aprofundar ainda mais no tema, sugiro que leiam W.C. Scotty[4], que narra sua aventura particular com uma de suas nuvens mais famosas.
         Particularmente acho que algumas pesquisas na internet também irão ajudar no momento da escolha do tipo certo de nuvem que se quer fabricar. Alguns designs são simplesmente incríveis.
         E vejam só, pode-se inclusive, comprar um kit com cristais de gelo e canhão de 12 polegadas, ou uma incrível máquina que prepara sozinha a nebulosidade. No caso do kit, você vai precisar contratar os serviços de uma empresa que prepare a nebulosidade e a carregue até a altura ideal para seu tipo de nuvem, e claro uma licença municipal, estadual ou federal para usar o espaço aéreo no local determinado, dependendo do tipo de empresa que você tem. Empresas locais necessitam apenas de uma licença da prefeitura. Já a máquina que prepara a nebulosidade, esta sim já vem com todas as licenças para uso geral-padrão, é bem mais caro, mas dependendo do tamanho do seu negócio, vale o investimento.
         Em 1860, a fabricação de nuvens, de chuva[5] ou decorativas era um negócio pouco explorado, mas como sabemos a necessidade é a mãe das invenções, e Juan Estorero inventou e patenteou uma máquina que fabricava os cristais em 1861[6].
         Em sua casa na cidade de Charaña na divisa com o Chile, Estorero observava um céu claro – completamente azul -  e sem uma única nuvem para lhe aguçar a imaginação – como na brincadeira de criar coisas ou animais com as formas das nuvens.
         E pensou que num dia tão belo quanto aquele, as pessoas não deveriam passar seus momentos sem um ofício para a mente, e inclusive, pensou também no fato de que, sem as nuvens, o dia ficava muito mais quente que de costume, e assim, de uma necessidade e um capricho, inventou a primeira máquina de fabricar cristais de gelo condensando-os para criar nuvens. Ainda nesta época não existiam os canhões que arremessavam os cristais na atmosfera criando a nebulosidade.
         De qualquer maneira começa nesta época a fabricação de nuvens decorativas, que hoje se constitui numa arte para poucos gênios do design.
         Quanto ao aspecto: a aparência geral de uma pessoa pode indicar aos nossos olhos e sentidos se ela é agradável ou não a nós, isto também acontece com as nuvens. Quando olhamos para as cinzas sabemos que há probabilidade de chover, enquanto que se ela é totalmente branca nos traz um sensação de beleza e frescor. Então imagine que uma pessoa cinza é uma nuvem de chuva e outra bonita é uma nuvem branca. Não, não pense nada disso, isto é preconceito, nem pessoas nem nuvens merecem isso.
         Quanto à constituição: imagine um aglomerado de pessoas de mesma condição sócio-econômica ou credo por exemplo, isto se denomina uma constituição. Entre elas existem as otimistas, as pessimistas e as realistas, criando assim uma espécie de divisão de grupos. Com as nuvens acontece a mesma coisa. Existem as sólidas, as líquidas e as mistas, que embora sejam uma constituição de nuvens também estão dividas em classes. E pensando bem não é bom para as pessoas serem divididas em classes, pois isso geraria uma luta entre elas, criando uma divisão nada agradável de castas que lutariam pelo poder, constituindo assim uma dominação desigual, pois os mais equipados teriam mais vantagens que desvantagem nessa luta. Com as nuvens também não seria legal, principalmente porque um profissional do ramo não pode escolher qual tipo de nuvem é mais bonita ou agradável que outra, pois isso geraria um caos orçamentário, sem contar que órgãos federais exigem e fiscalizam a isonomia dos tipos de nuvens em todo o território nacional.
         Quanto ao estágio: a produção industrial advinda da revolução acontecida no fim do século dezenove, produziu uma espécie de explosão tecnológica e financeira no mundo, dividindo as pessoas em classe sociais cada vez mais diferenciadas, ou seja, os ricos enriqueceram muito mais, os pobres continuaram pobres e, ao invés de plantar sua própria comida, viraram empregados dela, pois o emprego em fábricas e indústrias mudou essa relação do homem com a terra e seus produtos. Evidenciou-se muito mais as diferenças das classes sociais. Com as nuvens podemos dizer – numa metáfora tardia – que essa relação é muito parecida: existem as baixas, as médias e as altas.
         Por ser tratar de uma condição de nossa mente, subjetivar as coisas é normal, e não poderíamos deixar de fazê-la com as nuvens. Assim, as baixas são as menos importantes, as médias são simpáticas e as altas são as mais belas e melhores.
         Mas deixando de lado toda essa idiossincrasia com relação à fabricação de nuvens, é pertinente dizer que vale mesmo o feeling nessas horas.
         Faço aqui um breve relato particular de como consegui produzir a minha primeira nuvem, e é claro, não posso esquecer de dizer que: se você não tem uma mente criativa que fixe a priori a idéia da nuvem dentro de sua cabeça antes mesmo de sua confecção, não há porque nem sentido em começar a fabricá-la fisicamente.
         Um estado de bom humor e aceitação já é um bom começo, os estágios mais avançados requerem um nível de concentração que você só encontrará na meditação, na yoga etc...
         Faça, logo que acordar e ainda em sua cama, uma prece dirigida a qualquer coisa que você creia, não importa se é física ou não, isto serve para liberar a endorfina[7] acumulada durante o sono. Isto serve para ligar o motor da mente criativa. Em seguida, com os pés descalços pressione os dedos contra o chão, um de cada vez, apoiando a mão na cama para ter uma pressão mais uniforme. Esse exercício serve para endurecer as pontas dos dedos – vai que hoje seu carro quebrou e terá de ir trabalhar de ônibus.
         Veja bem, não há motivo para estresse. Lembre-se de que estás prestes a criar sua primeira nuvem e o equilíbrio emocional é muito importante.
         Arranje um horário em que não será incomodado por ninguém e deite com as costas contra o chão, fixe seu olhar no céu num ponto em que não haja uma nuvem já pronta, pense em como a sua relação com o mundo à sua volta determina suas atitudes, pense na relação de perda e ganho com você mesmo, sinta-se parte da paisagem.
         Viu? Não é tão difícil assim. Seguindo estes passos, uma imagem será criada em sua mente, então transfira essa imagem para o papel em palavras, diga como está se sentindo. Então espere o dia seguinte e, novamente quando acordar, pegue este papel e crie a imagem de uma nuvem baseado no texto.
         Pronto, você acaba de criar sua primeira nuvem.
         Para saber como criar tempestades, leia meu mais novo livro “Criando tempestades em onze passos”, da editora costa-prado.


[1] Stendell, A.C. - How Do I Make My First Cloud. São Paulo, 1989. ECP/BR
[2] Stendell, A.C. - How Do I Make My First Cloud. São Paulo, 1989. ECP/BR, p. 64

[3] idem, p.98
[4] Scotty, W.C. – My favorite Cloud. NY, 1994 – Sem tradução para o português.
[5] É necessário explicar que, para a fabricação de nuvens de chuva, o processo é bem mais complicado que apenas nuvens para decoração. Existe todo um aparato químico que não entrarei em detalhes nesta obra, fixando-me apenas na arte de fabricar nuvens decorativas.
[6] “Rain Machine”. Para encontrar mais sobre o inventor acesse HTTP://www.rainmachineestorero.com.bo
[7] Qualquer de certos peptídeos que ocorrem no cérebro, na hipófise e outros tecidos de vertebrados, capazes de produzir ação antálgica prolongada, e cujos efeitos se assemelham aos da morfina.


Guia Prático do Atravessador de Ruas


"Este guia dedica-se exclusivamente a pedestres experientes, maiores de idade e em pleno exercício de suas faculdades físicas e mentais"

Atravessar: verbo transitivo direto, significa passar para o outro lado, transpor um determinado espaço, locomover-se de um ponto ao outro – de uma margem a outra. Pedestre: aquele que anda a pé.

“Step by step the walker build your way.”
Whirwin Thompson – AAW[1]




[1] “De pé em pé o pedestre faz o seu caminho.” - Whirwin Thompson é médico chefe do Departamento Americano para a Saúde do Pedestre


Atravessar ruas está para o pé como beijar está para a boca: fundamental!
Atravessamos a rua para chegar ao outro lado, e não há nada mais intrigante do que se perguntar sobre isso. Não há nada que nos faça abdicar de poder transgredir a realidade e a lógica e mergulhar no universo do subjetivo quando falamos do ato de atravessar ruas.
Antes de mais nada, cada uma das duas extremidades inferiores, uma em cada membro inferior, constituídas de tarso, metatarso, e falanges dos pododáctilos, respectivas articulações, e partes moles que recobrem as ósseas, são chamadas de pé. Os pés servem para nos levar de um lugar ao outro, sustentar o peso do nosso corpo – e às vezes o corpo de outro também -, correr, pular, nadar, apoiar e – o motivo à priori de nossa discussão: atravessar ruas.


Assim, para atravessar uma rua faça da seguinte maneira:
Ao se deparar com a borda da calçada, coloque-se a uma distância entre quinze e vinte e cinco centímetros (margem de segurança) da rua e apóie com firmeza todo o conjunto de ossos e articulações, ou seja, o seus pés deverão estar bem firmes. Em seguida e sem pressa mova a cabeça em ambas as direções – para a direita e para a esquerda – a fim de se certificar de que é seguro imprimir movimento ao seu desejo de transpor a distância que separa você do outro lado. Para o destro o pé direito, para o canhoto o pé esquerdo – não importa qual deles se moverá primeiro -, o importante é que o movimento seja sincronizado.
Já nos primeiros passos pode-se sentir a pressão do solo sob nossos pés, de como o calçado se molda ao terreno para proporcionar o conforto necessário para que façamos a caminhada com segurança e destreza.
Os joelhos são de grande importância também nesse processo, pois compreendem a articulação da coxa com as pernas e todas as partes moles que a circundam. É fundamental manter sempre a saúde dos joelhos em dia.
Durante o intervalo de tempo entre os dois momentos - do lado em que se estava para o lado em que se quer estar  - podemos articular nosso pensamento, cantar uma canção qualquer, apreciar um espaço de terreno que se abrange num lance de vista, entre outras coisas. É claro que tudo isto só pode ser feito se não houver movimento na rua – que você a priori já se certificou quando olhou para os dois lados antes de atravessá-la.
E finalmente, atravessar ruas é um exercício necessário, obrigatório, e inerente ao modo de vida do homus erectus. Se até as galinhas atravessam a rua, por que nós não faríamos isso?
A partir de hoje você dará um novo valor a este simples e imperceptível ato humano, mas extremamente importante e fundamental: o verbo transitivo direto que abre caminho entre dois pontos distintos: o lado de cá e o lado de lá!

22 de out. de 2012

Amanhã...

Sobre a mesa, dentro da caixa de entrada, a carta de demissão e um pensamento recorrente. Ela estava lá há anos, porque ele ainda não estava pronto, e a espera era como se fosse um plano, ou um plano B.
Quando lhe perguntavam quando assinaria a tal carta, ele sempre respondia com um sorriso disfarçado, amanhã. E no ar, ficava a sensação de figura de linguagem, a metáfora preferida por ele.
Não havia data na carta, então, por mais que parecesse óbvio para todos que o dia pudesse não chegar mesmo, só ele, ainda via isso como algo verdadeiramente possível. E a metáfora se tornaria realidade.
Não era aposentadoria, mas sim desistência. E o que faria se desistisse?
E pensava que, se desistir era uma opção, qual era a outra?
Não era mudar de emprego, mas sim trocar aquela vida de trabalho, por uma vida de não-trabalho!
Megulharia nos livros, sua paixão?, construiria um barco e remaria ao encontro de Hemingway?, sentaria na beira da calçada e esperaria que saíssem coelhos das mangas de seu paletó?, esperaria até que a morte viesse buscá-lo e, a exemplo de Borges, o levasse para a grande biblioteca no céu, onde cabem todos os livros do mundo? Era uma ideia tentadora para ele.
E tanto pensou nisso, que tirou a carta de dentro da caixa. E todos olharam para ele sem acreditar que o dia havia chegado. E ele sorriu mais uma vez disfarçadamente. E todos viram quando ele a colocou na caixa de saída. E um grande murmúrio se instalou na sala quando ele virou as costas para todos sem se despedir. O cigarro, ainda aceso sobre a borda da mesa, marcava a madeira - era a sua assinatura!
Pela janela da sala, rostos colados no vidro olhavam a figura de um homem lá embaixo, que olhava de volta gargalhando. Finalmente havia colocado seu plano em prática. Estva livre por dentro e por fora.
E pensou que, se havia mesmo uma outra opção, com certeza não era ficar!
Alguns correram para tomar sua mesa e sentar-se ao lado da janela, outros, ainda perplexos, olhavam o homem se fastando, caminhando em direção ao infinito, passos calmos e firmes.